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Abril de 2002

Anorexias da vida
Por: PEDRO ROSÁRIO, Psicólogo



Também tive um problema ao subestimar a determinação da Ana. Eu sabia que ela era determinada, mas não tanto. Se a determinação me serviu de aliada no início, cedo a Ana a usou a seu favor, dizendo a si própria que eu a estava a controlar demasiado e que era insaciável.

 

Querida Audácia,

Olá. Desde pequena que ouço falar da revista Audácia e sempre a admirei. Obrigada. Neste momento, estou a escrever-te para te pedir ajuda. Há pouco tempo deparei-me com uma situação que jamais imaginava passar. Normalmente pensamos que só acontece aos outros, mas, infelizmente, aconteceu a uma amiga minha adolescente. A minha amiga tem anorexia nervosa, a família já não sabe o que fazer, a cada dia a minha amiga perde mais peso. Ela tem consciência do que se está a passar. Diz que gosta da vida e quer viver, mas ao mesmo tempo quando chega a hora das refeições limita-se a «comer» o mínimo ou quase nada. O que posso fazer mais? Já lhe disse que ela é quem tem que combater, somente ela. A resposta dela é: «Eu não tenho fome, não consigo comer, estou cheia.» Como é possível, como posso ver a minha amiga cada dia que passa a destruir-se. Ela está sendo acompanhada por técnicos. Na hora, ela ouve-os, mas depois, na altura de fazer o que eles mandam, não faz nada. Por favor, se puderes, ajuda-me a salvar a minha amiga agradecia-te.

Carta assinada

 

Querida amiga,

Olá. Obrigado por quereres ajudar a tua amiga. Obrigado por te preocupares desinteressada e generosamente. Obrigado por abrires, com a tua carta, um diálogo sobre a anorexia, que ataca a vida de tantas, tantas jovens. Vou aproveitar a boleia de um texto escrito por Miguel Gonçalves e Margarida Henriques na Terapia Narrativa da Ansiedade. Espero que gostes.

“Eu sou a anorexia. Dominei a vida da Ana a partir do Verão passado de uma maneira muito inteligente: convencia-a de que atingiria a perfeição se as suas pernas fossem como as dos modelos. A vida dela rapidamente se tornou um conjunto de regras por mim ditadas sobre a alimentação: diminuir ao máximo ou retirar gorduras; diminuir os hidratos de carbono; beber muitos líquidos; pesar-se todos os dias; ter horários rígidos de alimentação; fazer muito exercício; ler revistas sobre dietas; não comer com os amigos e não falar sobre a alimentação.

Convenci a Ana de que ela só poderia gostar de si quando tivesse as pernas como eu quero. É evidente que quem diz se estão ou não suficientemente magras sou eu. E é claro que eu sou insaciável! Gosto das pessoas magras, muito magras, quase sem forças, que é para eu as poder dominar totalmente! Eu soube muito bem aproveitar-me das qualidades da Ana: usei a sua determinação, o seu desejo de independência e a sua vontade de estudar. A sua determinação serviu-me para a manter dominada pelas minhas regras, confundindo-as com os seus próprios desejos (...). Ensinei-a a desenvolver uma enorme habilidade para enganar os outros em relação à alimentação – disse-lhe como havia de esconder a comida e o que deveria fazer para não a forçarem a ingerir os alimentos. Foi assim que a isolei dos outros. Utilizei o pretexto de que estes a iriam obrigar a falar de mim e tentariam convencê-la a comer alimentos que a iriam engordar. Logo agora que ela estava perfeita! Tendo como companhia só a minha presença, era mais fácil controlá-la e levá-la a confundir-me consigo própria! Já me esquecia: ao isolá-la dos outros, ensinei-a a olhar para si mesma de maneira – diferente onde os outros viam um corpo subalimentado, a caminho da morte, eu fazia-a ver um corpo perfeito! Esta arte da cegueira domino-a eu! Controlo milhares de jovens em todo o mundo com esta táctica (...).

Também tive um problema ao subestimar a determinação da Ana. Eu sabia que ela era determinada, mas não tanto. Se a determinação me serviu de aliada no início, cedo a Ana a usou a seu favor, dizendo a si própria que eu a estava a controlar demasiado e que era insaciável (...). Finalmente tive um outro problema – a tristeza que a Ana começou a sentir. A maioria das vezes eu uso a tristeza a meu favor: convenço as pessoas de que estão tristes porque ainda não são perfeitas (sim, é verdade, eu faço-as acreditar que estar perfeito é ser muito, muito magro). Mas com a Ana isto não resultou como eu esperava – ela percebeu que a tristeza era uma consequência de não poder comer aquilo de que gostava e de ver os pais perturbados com a minha presença. A Ana percebeu que só poderia resolver a sua tristeza se se livrasse de mim, enfim, não tive tanta sorte como costumo ter.

Hoje ainda tenho algum domínio sobre a vida da Ana – embora muito menos do que eu desejaria. Contudo, ainda consigo convencer a Ana, de vez em quando, de que posso voltar, e ainda a faço sentir-se preocupada com a alimentação, embora me pareça que ela está a ultrapassar esta fase, porque tem estado a desafiar de forma progressiva as minhas ordens e regras. Parece que a Ana antiga está de volta. Enfim, para a próxima tenho que procurar alguém mais fraco, para a submeter ao meu ideal de magreza e de perfeição!..”

Espero que esta carta te dê algumas pistas para ajudares a tua amiga e seja uma oportunidade para todos repensarmos as anorexias das nossas vidas.

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