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Maio de 2003

Ainda não é proibido sonhar
Por: DAVID DOMINGUES



Deves estar a pensar que isto não passa de puro romantismo! Talvez tenhas razão. Mas, perante um mundo que parece desabar pelas mãos da violência, do ódio e do querer do mais forte, devemos reservar-nos o direito de sonhar com algo de novo, diferente, alternativo.

Regressava a casa, no final de mais um dia de trabalho. Detive-me a olhar uma criança sentada no jardim. Acariciava uma pequena planta que pela força da Primavera começava a desabrochar. Que lhe estaria a dizer? Talvez não lhe dissesse nada! A criança inspirava paz e serenidade ao tocar cada folha da planta com grande delicadeza e ternura. Parecia querer ajudar a pequena planta a desabrochar para a vida. Depois do rigor do frio e da chuva do Inverno, ia ganhando vigor, reverdecendo as folhas e abrindo algumas florinhas. O tempo parecia parado diante de tal espectáculo de paz e harmonia. E um desejo aflorou ao meu coração: que bom seria que em cada tempo e lugar houvesse espaço para a paz e harmonia e que cada criança tivesse a oportunidade de acariciar uma planta, “ajudando” o mundo a ficar mais florido.

Deves estar a pensar que isto não passa de puro romantismo! Talvez tenhas razão. Mas, perante um mundo que parece desabar pelas mãos da violência, do ódio e do querer do mais forte, devemos reservar-nos o direito de sonhar com algo de novo, diferente, alternativo. Afinal, sonhar não é proibido e é dos sonhos que nascem grandes projectos, novas realidades, obras-primas, rasgos novos que marcam o mundo e a história.

O sonho não é necessariamente evasão, esconderijo ou fuga à realidade! Pode ser manifestação de um desejo profundo que nos move desde dentro, bem dentro do nosso coração, e nos impele para o agir concreto na construção da vida. Tal como quando dois jovens se apaixonam, dizem e juram sonhar um com o outro e se deleitam em poder contar aos amigos mais íntimos e um ao outro os sonhos que tiveram, dando asas e vivendo a paixão.

Também temos a capacidade de nos apaixonarmos por um projecto novo, por uma realidade diferente que gostaríamos reinasse no nosso mundo, sobrepondo-se ou eliminando tantas realidades adversárias ao nosso sonho. Quem não tem coragem de sonhar ou de acreditar, lançando-se na aventura de criar algo de novo, propor novas alternativas, manifestar a sua insatisfação com tudo aquilo que destrói a harmonia e beleza do nosso universo, não tem outra saída que a desilusão, o desencanto, fechando-se em si próprio e construindo muralhas à sua volta de modo a sentir-se protegido dentro da sua indiferença pelos outros.

Perante o triste espectáculo da destruição causada pela força das armas, pelo poder desmedido, pela ganância de alguns, e pelo ódio que não conhece compaixão, cativa-nos o exemplo de tantos homens e mulheres que, movidos pelo sonho de um mundo diferente, se entregam sem reservas a uma luta onde as bombas não explodem nem matam. Munidos das bombas do amor, da concórdia, da paz, da justiça, do direito à vida, atacam com voz forte e actos corajosos alvos estratégicos, reconstruindo um mundo já devastado. Com eles também eu (e espero poder contar contigo!) quero acreditar que a força do Sol é mais poderosa do que o vento tempestuoso.

“Um dia, o Sol e o Vento discutiram sobre qual deles conseguiria que um caminhante que passava tirasse o sobretudo.

O Vento, porque é muito forte, dizia que bastava-lhe soprar com muita força e o capote desse homem voaria pelos ares.

O Sol, mais astuto, apenas disse:

­ Comecemos a aposta. Entra tu em acção, amigo Vento.

Quanto mais este soprava, mais o homem se agarrava ao sobretudo, protegendo-se do frio Vento.

Chegou a vez do Sol. Este começou a brilhar e a aumentar lentamente o seu calor. O caminhante, atingido pelos ardentes raios do Sol, tirou o sobretudo. O Vento, apesar de tanta força e tanto ruído, deu-se por vencido.

Aos que pensam que a força reside apenas nos músculos, no poder que se impõe, na violência hostil, devo dizer que o poder do calor que brota do sonho vivido com paixão tem imensamente mais poder. Talvez não seja uma força tão visível. Talvez seja mais discreta e até aparente ser ineficaz. Mas eu acredito, tal como Jesus acreditou, que a força do amor é mais poderosa. Não se impõe ao ser humano, mas desabrocha no mais íntimo do seu coração.

Jesus ousou sonhar um mundo novo, uma realidade nova construída não pela força de um exército e por armas sofisticadas e potentes, mas pela arma mais poderosa que existe: o amor. Por isso, aceitou dar a vida como prova de que é na paixão do amor gratuito e desinteressado que despontam pequenas folhas verdejantes de paz, justiça, comunhão...

É do coração de quem ainda ousa sonhar como Jesus que vão florescendo pequenas flores de esperança e de vida para uma nova primavera da humanidade.

Sonha um mundo novo

vive a paixão do amor gratuito!

Sonha um mundo novo

vive a entrega sem reservas!

Sonha um mundo novo

vive o compromisso de seres jovem!

Sonha um mundo novo

vive a alegria de imitar Cristo!

Sonha um mundo novo

vive a loucura de quem ainda ousa sonhar!

Sonha um mundo novo... Sim! Sonha... porque quem sonha vive, realiza, cria, renova, constrói e afinal ainda não é proibido sonhar!

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