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Clubes Oceano
Dezembro de 1997

Apanha de algas Ceifando o fundo do mar
Por: HUMBERTO VASCONCELOS



O «gelidium» é a alga mais procurada e a que tem mais importância económica, se formos compará-la com as carraginófitas, a graciliária e o «fucus». Estas três últimas espécies são as mais frequentes na costa norte e a área do seu aparecimento vai até à zona de Pedrógão, perto da Marinha Grande.

 

Não são mais que 200. Entre os 20 e os 30 anos. Ganham vida no fundo do mar. São os apanhadores de algas. Muitos deles trabalham a partir de Sesimbra, para o fundo dos mares do Espichel, o cabo agreste, ou da Aldeia do Meco. A sua base de apoio, já no mar, são os barcos amarelos, antigas traineiras, que ostentam bandeiras azuis e brancas. Para que os mergulhadores tenham a segurança de não serem trucidados por outras embarcações que andam na faina da pesca, estas, ao vê-los, logo passam a mais de cem metros de distância.

Conhecedores dos fundos, os mergulhadores e os mestres das barcas dirigem-se sem delongas, ainda o sol começou a sair da linha do horizonte, para os melhores locais, onde há mais e melhores algas. Só um tubo de ar os liga ao compressor que fica a bordo - é o tubo da vida. Sem ele, seria uma desgraça.

Os apanhadores de algas sabem bem o que estão a fazer. Não apanham qualquer alga e de qualquer tamanho. Sabem que elas são a «galinha de ovos de ouro» e, se abusarem, acaba-se o negócio, e o emprego.

«Apanhar algas da forma como fazemos não tem mal algum, embora haja quem nos critique. Além de tudo, e de termos a consciência do que é bom ou mau, estamos sob fiscalização oficial do Ministério da Agricultura e Pescas. Se as não apanhássemos todos os anos, elas acabariam por vir dar à costa apodrecidas», diz um experimentado apanhador.

Depois, há que ter cuidado com a profundidade a que se trabalha, pois, para além dos dez metros, quando se sobe à superfície, tem de ser feita uma descompressão. Caso contrário, podem ser vítimas de doença. Para se controlarem, têm um relógio de profundidade. Parte do que cada um apanha é para pagar o barco e o gasóleo.

Antigamente, não havia sabedoria nem cuidados com a apanha. Tudo mudou. A partir do mergulho livre, vieram depois as máscaras, os aparelhos de mergulho e os fatos, para não arrefecer o corpo. Mas apesar de dar algum dinheiro, é uma actividade sazonal, que dura três meses, e por isso eles têm de ter outra actividade. Uma boa época de apanha de alga pode render 50 toneladas, o que dá 20 mil contos, ou seja, cinco mil para cada um. Mas a carreira termina cedo. Aos 30 é o fim.

Antes da Revolução do 25 de Abril, tinham de vender as algas a um preço baixo, a um delegado do Estado. Depois da Revolução formaram uma cooperativa: a Estrela do Sul. E veio a redução do número de horas de mergulho, melhores preços, mais protecção na saúde.

E veio também a formação profissional. Há anos, mergulhava-se de qualquer maneira. Agora, há cursos - desde 1982. E fazem-se exames, controlados pela marinha de guerra. Mas para que servem as algas que com tanta dificuldade, trabalho e perigo se colhem no fundo do mar?

Já sei que a maioria dos nossos leitores dirão que não servem para nada. Puro engano.

O gelidium é a alga mais procurada e a que tem mais e importância económica, se formos compará-la com as carraginófitas, a graciliária e o fucus. Estas três últimas espécies são as mais frequentes na costa norte e a área do seu aparecimento vai até à zona de Pedrógão, perto da Marinha Grande.

O gelidium é a alga que vai render mais aos mergulhadores do Sul, de Peniche para o Sul, até ao Algarve.

Depois de secas e transformadas, obtém-se uma substância chamada o agaragar e o carraginado, que não passam de uns pós brancos de diferentes granulagens. O primeiro tem grande mercado no Japão, mas também no austríaco, inglês e norte-americano, países onde são utilizados para fins alimentares e farmacológicos.

Os carraginados - imaginem! - são vendidos às indústrias alimentares portuguesas e servem para gelificação e estabilização de iogurtes, pudins, leite com chocolate e conservas. E se julgam que o seu uso não é vulgar, ficamos aqui com a pergunta: quem é que não comeu já sandes de fiambre?

Pois fiquem sabendo que o fiambre, ao apresentar aquele ar fresco, o deve aos carraginados que nele estão incorporados.

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